Este artigo tem por objetivo apresentar diferentes aspectos relacionados à psicopatia, seus mecanismos de funcionamento e suas possíveis manifestações nas relações humanas, especialmente quando articuladas ao poder, à manipulação e ao domínio do outro.
ABORDAREMOS INICIALMENTE O EMBLEMÁTICO CASO DE TED BUNDY
Ted Bundy tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de violência serial associada, no imaginário social, à psicopatia. Sua aparência socialmente adaptada, sua capacidade de comunicação e sua habilidade para conquistar a confiança de outras pessoas contrastavam de maneira perturbadora com a violência de seus crimes.
Seu caso nos conduz a uma reflexão importante: o perigo nem sempre se apresenta como ameaça evidente. Algumas vezes, ele pode surgir revestido de inteligência, simpatia, segurança, fragilidade ou encanto.
A distância entre a aparência social e os atos praticados é uma das questões que tornam determinados funcionamentos psicopáticos particularmente difíceis de reconhecer. Parecer confiável não significa necessariamente possuir empatia, responsabilidade afetiva ou consideração pelo outro.
A psicopatia não constitui um diagnóstico independente no DSM-5-TR. Na prática clínica e forense, seus traços podem ser investigados por meio de entrevistas, histórico de vida, documentos, informações de terceiros e instrumentos específicos, como a Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R).
É importante, entretanto, não transformar características isoladas em diagnóstico. Frieza, sedução, ambição, vaidade, inteligência, reserva emocional ou capacidade de liderança, por si mesmas, não caracterizam psicopatia.
A PSICOPATIA E O ESTEREÓTIPO DO CRIMINOSO
Durante muito tempo, o psicopata foi representado socialmente como alguém necessariamente frio, violento, ameaçador e facilmente reconhecível. Essa representação pode ser insuficiente para compreender a complexidade do fenômeno.
Nem todo indivíduo com traços psicopáticos é um assassino, assim como nem todo criminoso violento é necessariamente psicopata. A psicopatia deve ser compreendida a partir de um padrão persistente de funcionamento, envolvendo aspectos afetivos, interpessoais e comportamentais.
O elemento central não está simplesmente na aparência fria ou na ausência aparente de emoção, mas na maneira como o sujeito estabelece relações, utiliza o outro e responde às consequências de seus próprios atos.
Quando a outra pessoa passa a ser percebida predominantemente como instrumento para obtenção de vantagens, satisfação de interesses ou manutenção do domínio, a relação humana pode perder sua dimensão de reciprocidade.
PSICOPATIA FEMININA: POR QUE PODE SER SUBESTIMADA?
A discussão sobre psicopatia também precisa considerar suas possíveis manifestações em mulheres. Historicamente, grande parte da literatura científica sobre psicopatia foi desenvolvida a partir de amostras predominantemente masculinas, o que contribuiu para a construção de um modelo social fortemente associado ao homem violento.
Em algumas mulheres, determinados comportamentos de manipulação e exploração podem assumir formas diferentes, podendo envolver sedução, vitimização, chantagem emocional, controle, exploração financeira, difamação, utilização dos vínculos afetivos ou dos filhos e construção de uma imagem socialmente admirável.
Isso não significa que toda mulher sedutora, manipuladora, ambiciosa, fria ou emocionalmente intensa seja psicopata. Da mesma forma, não significa que toda pessoa que ocupa uma posição de autoridade apresente esse funcionamento.
Casos criminais envolvendo mulheres, como os de Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, tiveram enorme repercussão social e midiática. Entretanto, é necessário distinguir a análise dos comportamentos e dos crimes de uma afirmação diagnóstica que não possa ser devidamente sustentada por avaliação clínica especializada.
O gênero não deve funcionar como proteção automática contra denúncias de abuso, exploração ou violência. Da mesma maneira, não deve ser utilizado para produzir diagnósticos ou julgamentos psicológicos sem fundamento.
PSICOPATIA, TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL E NARCISISMO
Psicopatia e transtorno de personalidade antissocial são conceitos relacionados, mas não absolutamente equivalentes.
O transtorno de personalidade antissocial é um diagnóstico formal descrito nos manuais classificatórios e envolve um padrão persistente de desrespeito e violação dos direitos dos outros, podendo incluir mentira, impulsividade, irresponsabilidade, agressividade e ausência de remorso.
A psicopatia, por sua vez, corresponde a um constructo mais específico, tradicionalmente associado a características afetivas, interpessoais e comportamentais, como superficialidade emocional, manipulação, mentira patológica, ausência de culpa ou remorso e utilização instrumental das relações.
O narcisismo também não deve ser confundido automaticamente com psicopatia. O funcionamento narcísico pode envolver necessidade intensa de admiração, preocupação com a própria imagem, sentimento de superioridade, vulnerabilidade diante de críticas e dificuldade em reconhecer o outro em sua alteridade.
Embora determinados traços possam coexistir, não se deve transformar todo funcionamento narcísico em psicopatia, assim como nem toda pessoa ambiciosa, competitiva ou preocupada com sua imagem apresenta um transtorno de personalidade.
PSICOSE NÃO É PSICOPATIA
É fundamental estabelecer uma distinção entre psicose e psicopatia.
A psicose está relacionada a uma organização psíquica distinta e pode envolver fenômenos como delírios, alucinações e alterações importantes na relação do sujeito com a realidade. Isso não significa, de maneira alguma, que uma pessoa em sofrimento psicótico seja violenta.
Associar automaticamente psicose à violência contribui para o preconceito e para a estigmatização de pessoas que apresentam transtornos psicóticos.
Na perspectiva psicanalítica, neurose, psicose e perversão correspondem a conceitos estruturais distintos e não devem ser utilizados como simples sinônimos de comportamentos considerados bons ou maus.
A perversão, particularmente, não pode ser reduzida à crueldade. Na tradição psicanalítica, trata-se de um conceito muito mais complexo, relacionado à posição do sujeito diante da lei, do desejo, da falta e do outro.
UMA PREDISPOSIÇÃO NÃO DEFINE O DESTINO
O desenvolvimento de determinados padrões de personalidade resulta da interação de múltiplos fatores, entre eles temperamento, vínculos familiares, experiências de cuidado, educação, limites, ambiente e condições sociais.
Uma predisposição não determina, isoladamente, o destino de um sujeito.
Comportamentos persistentes de crueldade, agressividade, mentira, exploração ou ausência de culpa devem ser avaliados dentro de seu contexto e, quando necessário, por profissionais especializados.
Na infância, não se estabelece o diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial. Determinados comportamentos podem ser investigados dentro de outros quadros, como o transtorno de conduta, sem transformar a criança em um diagnóstico definitivo nem condená-la a um destino previamente determinado.
QUANDO A PSICOPATIA ENCONTRA O PODER
O poder, por si só, não é patológico. Pode ser exercido com responsabilidade, ética, limite e compromisso com o coletivo.
O problema surge quando o poder passa a funcionar como instrumento de controle, humilhação, exploração, intimidação ou garantia de impunidade.
O cargo oferece acesso. O poder oferece influência. A instituição oferece legitimidade.
Quando esses recursos deixam de estar submetidos a limites éticos, podem ser utilizados para satisfazer interesses pessoais e ampliar uma posição de domínio sobre o outro.
Na perspectiva psicanalítica, podemos formular uma questão essencial:
O poder está sendo utilizado para servir ao coletivo ou para sustentar uma fantasia de superioridade e domínio?
Essa pergunta nos permite ultrapassar a aparência do cargo e observar aquilo que sustenta psiquicamente determinada relação com a autoridade.
Na política, a manipulação pode aparecer por meio da construção sistemática de inimigos, da vitimização, da distorção de informações, da transformação de críticas em ataques pessoais e da utilização do medo como instrumento de controle.
No ambiente empresarial, pode manifestar-se por meio de humilhações, ameaças, promessas falsas, apropriação de ideias, manipulação de informações, punição de denunciantes e criação deliberada de relações de dependência.
Entretanto, é fundamental ressaltar: decisões difíceis, discursos firmes, ambição política ou empresarial e exercício de autoridade não constituem, por si mesmos, evidências de psicopatia.
O que merece atenção é a existência de padrões persistentes de mentira, exploração, manipulação, violação de limites, perseguição, ausência de responsabilidade e utilização das pessoas como instrumentos.
OS PODEROSOS MAIS PERIGOSOS
Os indivíduos potencialmente mais perigosos em posições de poder não são necessariamente aqueles que demonstram maior agressividade.
O risco pode estar justamente na capacidade de construir confiança, produzir dependência, controlar narrativas, seduzir, dividir pessoas, silenciar opositores e utilizar instituições para proteger os próprios interesses.
O poder pode ampliar aquilo que já existe na estrutura psíquica do sujeito. Quando encontra um funcionamento marcado pela necessidade de domínio e pela instrumentalização do outro, a autoridade pode transformar-se em uma poderosa ferramenta de controle.
Por isso, instituições saudáveis precisam de limites, fiscalização, transparência e mecanismos de responsabilização. Nenhuma posição hierárquica deveria estar acima da possibilidade de ser questionada.
RESPONSABILIDADE
Compreender o funcionamento psicológico de uma pessoa com traços psicopáticos não significa justificar seus atos nem apagar o sofrimento de suas vítimas.
Na psiquiatria forense, um diagnóstico não retira automaticamente a responsabilidade jurídica do indivíduo. Da mesma forma, na psicanálise, compreender conflitos inconscientes não significa retirar do sujeito sua responsabilidade ética por seus atos.
Compreender não é absolver.
Explicar não é justificar.
E reconhecer o funcionamento psíquico não significa diagnosticar alguém à distância.
Significa desenvolver um olhar mais cuidadoso para os padrões relacionais e compreender como determinadas formas de manipulação, exploração e domínio podem se estabelecer antes que produzam consequências ainda mais graves.
UMA REFLEXÃO FINAL
Ao longo de mais de vinte anos, venho estudando a estrutura psicopática, suas formas de manifestação, seus mecanismos de sedução, controle, manipulação e exploração, bem como os efeitos devastadores que determinados funcionamentos podem produzir nas relações familiares, profissionais, institucionais e sociais.
Esse percurso de estudo e reflexão ensinou-me que compreender a psicopatia exige responsabilidade, rigor e cuidado.
Não se trata de rotular pessoas.
Trata-se de reconhecer padrões.
Não se trata de procurar psicopatas em todos os lugares.
Trata-se de compreender como determinados sujeitos podem utilizar o outro como objeto para sustentar seus interesses, seu poder e sua sensação de domínio.
E talvez seja justamente aí que o poder revele sua face mais perigosa: quando deixa de ser uma função exercida sobre uma realidade coletiva e passa a servir à satisfação de uma realidade psíquica particular.
Autora: Luzziane Soprani
REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Association, 2022.
CLECKLEY, Hervey M. The Mask of Sanity. 5. ed. St. Louis: Mosby, 1976.
HARE, Robert D. Manual for the Revised Psychopathy Checklist. 2. ed. Toronto: Multi-Health Systems, 2003.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
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