“Não consigo realmente suportar Seres Humanos às vezes – sei que todos têm os problemas deles como eu tenho os meus – mas estou realmente cansada demais para isso. Tentar entender, fazer concessões, ver certas coisas isso simplesmente me esgota.” Marilyn Monroe.
Marilyn Monroe permanece, décadas após sua morte, como uma das figuras mais emblemáticas da cultura ocidental. Sua imagem ultrapassou o cinema e tornou-se um dos mais poderosos símbolos do feminino, da sensualidade e do desejo. Por trás dessa construção coletiva, entretanto, havia uma subjetividade marcada por experiências precoces de abandono, instabilidade afetiva e vulnerabilidade emocional.
Este artigo é constituído de uma reflexão sobre, Marilyn Monroe, então denominada “Marilyn Monroe, a Diva Borderline”. A proposta atual não é sustentar um diagnóstico retrospectivo, mas aprofundar sua trajetória a partir de uma perspectiva psicanalítica e psicodinâmica. Marilyn pode ser pensada como uma figura em que se articulam várias facetas – sobre seu self. Norma Jeane Baker tornou-se Marilyn Monroe. Essa transformação não foi apenas a criação de uma personagem cinematográfica, mas a constituição de uma forma de existência social que passou a ultrapassar a própria mulher que a originou. A persona ofereceu proteção e reconhecimento, mas também impôs a exigência de sustentar uma imagem continuamente desejável. É nessa tensão entre ser e parecer ser que se inscreve uma das chaves de sua história.
DA PERSONA
A persona é a face que o sujeito apresenta ao mundo, uma mediação entre vida psíquica e exigências externas. Não se trata de falsificação, mas de adaptação. No caso de Marilyn, essa construção atingiu dimensão extraordinária. A mulher tornou-se a figura loira e sensual consagrada pelo cinema como objeto de fascínio coletivo. Essa persona possibilitou reconhecimento e inserção social, mas também restringiu a possibilidade de existência fora dela. Quanto mais consolidada a imagem de Marilyn, mais difícil se tornava para Norma Jeane existir separadamente. A personagem passou a depender do olhar externo que a sustentava.
DO SELF
O self refere-se à experiência de continuidade da identidade. Em condições mais integradas, o sujeito pode ocupar diferentes papéis sem perder a sensação de unidade. Em Marilyn, observava-se tensão entre a imagem pública e uma vivência interna marcada por instabilidade e dependência do olhar externo. O paradoxo central é que o reconhecimento não produzia necessariamente segurança interna. Quanto mais Marilyn era vista, mais parecia necessária a confirmação de sua existência pelo outro. O reconhecimento social não equivale ao reconhecimento subjetivo.DO ABANDONO
A infância de Marilyn foi marcada por rupturas de continuidade afetiva. A mãe enfrentava graves dificuldades psíquicas e permaneceu institucionalizada em diferentes períodos, enquanto Marilyn passou por múltiplos lares. Essas experiências não explicam linearmente sua vida adulta, mas podem ter contribuído para a construção de um objeto interno vivido como instável.
Quando o outro é percebido como incerto, o medo da perda se intensifica e o vínculo passa a ocupar função central na regulação psíquica. Ser escolhida pode, então, adquirir valor de confirmação de existência.
DA NECESSIDADE DE CONFIRMAÇÃO DO OUTRO
O olhar do outro é constitutivo. Ser visto e reconhecido é fundamental para a organização da identidade. O problema não está na necessidade do outro, mas na possibilidade de que esse olhar se torne a sustentação exclusiva do self.
Marilyn foi intensamente olhada. Sua imagem tornou-se objeto de consumo e projeção. Mas ser vista não equivale a ser reconhecida em sua subjetividade. A indústria e o público produziram Marilyn como imagem, enquanto Norma Jeane permanecia menos acessível.
DO RECONHECIMENTO
O reconhecimento não se confunde com admiração. Ele implica ser percebido como sujeito.
A admiração coletiva pode fixar o indivíduo em uma imagem, dificultando a expressão de sua ambivalência. Marilyn encarnava contradições que a imagem não comporta facilmente: força e fragilidade, desejo e solidão, brilho e angústia.
A persona exige continuidade; o sujeito necessita de complexidade.
Marilyn esteve cercada por pessoas que exerciam funções de cuidado e proteção. Essas relações podem ser compreendidas como formas de continência psíquica, nas quais o outro sustenta aquilo que o sujeito não consegue regular sozinho.
Quando há fragilidade na autorregulação emocional, tais vínculos tornam-se centrais, o que ajuda a compreender a intensidade das relações e o impacto das separações.
DA DEPENDÊNCIA AFETIVA
A dependência afetiva não se reduz à incapacidade de estar só, mas à dificuldade de sustentar segurança interna. O sujeito necessita do outro para regular estados psíquicos.
Marilyn expressava essa contradição: grande projeção pública e intensa necessidade de acolhimento íntimo.
DO HUMOR E DA REGULAÇÃO AFETIVA
Relatos indicam instabilidade emocional e sofrimento psíquico. Contudo, não é possível estabelecer retrospectivamente um diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline.
Características como sensibilidade ao abandono e intensidade afetiva podem ser consideradas apenas como elementos interpretativos, não diagnósticos.
Trata-se de compreender uma dinâmica, não de nomear uma patologia.
DO TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE
O funcionamento borderline envolve dificuldades na regulação afetiva, na identidade e nas relações. O outro pode ser idealizado e desvalorizado de forma alternada, e a separação pode ser vivida como abandono.
Esses elementos não permitem qualquer conclusão diagnóstica sobre Marilyn, mas oferecem uma lente teórica possível para pensar determinados aspectos de sua trajetória.
DA RELAÇÃO COM O OBJETO
Na perspectiva das relações objetais, o outro também é um objeto interno construído a partir das experiências relacionais.
Quando há descontinuidade nos vínculos iniciais, o objeto interno pode ser associado à instabilidade e ao medo de perda. A proximidade torna-se simultaneamente desejada e temida, produzindo ambivalência.
DA MÁSCARA
Marilyn Monroe pode ser compreendida como uma das máscaras mais emblemáticas do século XX.
A máscara não é apenas ocultamento, mas também proteção e possibilidade de existência social. Norma Jeane talvez precisasse de Marilyn para se inserir no mundo.
O paradoxo é que a persona, ao se consolidar, passou a restringir a existência fora dela.
DA MULHER TRANSFORMADA EM OBJETO
Marilyn tornou-se um dos maiores símbolos sexuais da história, e sua imagem foi amplamente consumida.
Entretanto, há diferença fundamental entre ser objeto do desejo e ser reconhecida como sujeito. A transformação em símbolo tende a apagar a singularidade, convertendo a pessoa em imagem.
DO FEMININO NO IMAGINÁRIO
Marilyn condensa fantasias sobre o feminino: desejo, fragilidade, sedução e poder.
Essa ambivalência sustenta sua permanência no imaginário cultural, permitindo múltiplas projeções.
O desejo projetado sobre Marilyn revela também o sujeito que deseja. Ela se torna um objeto simbólico no qual cada um inscreve seu próprio imaginário.
A força da imagem contrasta com a fragilidade da experiência subjetiva. Visibilidade não equivale a intimidade, e admiração não garante pertencimento.
PARA ALÉM DO DIAGNÓSTICO
Mais do que um diagnóstico, sua história interroga a constituição do sujeito.
Marilyn permite pensar a relação entre identidade e olhar externo, desejo e reconhecimento, persona e self.
Sua trajetória não autoriza diagnósticos retrospectivos, mas revela como o sujeito pode ser capturado por sua própria imagem.
Marilyn foi intensamente vista, desejada e transformada em símbolo. Mas sua história permanece interrogando: quem reconhece o sujeito quando todos olham apenas para a personagem?
Entre a persona e o self, entre o olhar e o reconhecimento, permanece a pessoa por trás da personagem, Norma Jeane — não apenas como a mulher que se tornou Marilyn Monroe, mas como alguém que talvez tenha buscado, por trás da imagem, um lugar onde pudesse existir sem precisar representar.
REFERÊNCIAS
Fragmentos – Poemas, Anotações Íntimas e Cartas de Marilyn Monroe — organização de Stanley Buchthal e Bernard Comment. Prefácio de Antonio Tabucchi. Editora Tordesilhas.
Corações Descontrolados — Silva, Ana Beatriz Barbosa. Editora Fontanar, 266 páginas.
Autora: Luzziane Soprani






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