INTRODUÇÃO

“O papel da vítima é a mais refinada forma de vingança”. Bert Hellinger

O presente artigo propõe uma reflexão sobre o lugar que a vítima pode ocupar na própria existência. Ser vítima de uma circunstância não é, por si só, um problema; o que merece atenção é quando a posição de vítima se transforma em uma forma permanente de interpretar a vida. O vitimismo crônico não constitui, necessariamente, uma patologia. Entretanto, quando o indivíduo passa a atribuir sistematicamente ao outro a responsabilidade por seus sofrimentos, escolhas e fracassos, pode estabelecer-se um funcionamento psíquico marcado pela desconfiança, pelo ressentimento e pela incapacidade de assumir a própria participação naquilo que lhe acontece. Nesse sentido, o vitimismo pode tornar-se uma espécie de zona de conforto. Permanecer no lugar de vítima oferece, ainda que de maneira inconsciente, uma justificativa para não agir, não mudar e, sobretudo, não se responsabilizar. A fragilidade passa a ocupar o centro da identidade, enquanto a responsabilidade é constantemente deslocada para o outro. A vítima habitual tende a comparar dores: “Ninguém sofre como eu”, “ninguém enfrenta problemas maiores que os meus”, “ninguém compreende o que estou passando”. Sua dor precisa ser sempre a maior, como se reconhecer o sofrimento alheio diminuísse a legitimidade do próprio. O problema não está em sofrer, pedir ajuda ou reconhecer a própria vulnerabilidade. Todos, em algum momento, precisamos do outro. O problema surge quando a necessidade de amparo se transforma em uma posição permanente diante da vida, na qual toda dificuldade se converte em prova de injustiça e toda responsabilidade é recusada. Há, então, um paradoxo: aquilo que inicialmente parece fragilidade pode tornar-se uma forma de poder sobre o outro. Ao ocupar permanentemente o lugar de quem sofre, o indivíduo pode exigir atenção, compreensão e concessões, ao mesmo tempo em que se isenta da reciprocidade. E, quando o sofrimento alheio aparece, pode até mesmo sentir necessidade de demonstrar que sua dor é maior. Por isso, o vitimismo não deve ser confundido com vulnerabilidade. A vulnerabilidade permite reconhecer limites e pedir ajuda; o vitimismo, quando cristalizado, pode transformar a ajuda em obrigação e a compreensão em dívida. A posição de vítima torna-se verdadeiramente limitante quando impede o movimento. Quem permanece exclusivamente nesse lugar não se pergunta mais: “O que posso fazer diante disso?”, mas apenas: “Quem é o culpado pelo que me acontece?”. Assumir responsabilidade não significa negar aquilo que nos fizeram, tampouco minimizar a dor sofrida. Significa reconhecer que, mesmo quando não escolhemos determinadas circunstâncias, podemos escolher o que faremos com elas. Talvez seja justamente aí que comece a possibilidade de transformação: quando o sujeito deixa de viver apenas a partir daquilo que lhe aconteceu e passa a perguntar o que pode fazer, apesar daquilo que lhe aconteceu. Porque permanecer vítima pode oferecer abrigo; mas somente sair desse lugar possibilita movimento, autonomia e transformação.