“Proponho que a única coisa da qual se possa ser culpado, pelo menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo”. Jacques Lacan.

Abordaremos neste artigo a culpa do sujeito fragilizado – implica dizer que a pessoa não se posiciona diante de assuntos relevantes da vida – como, por exemplo, saber o momento oportuno de dizer: não e/ou sim.

O “não” é uma maneira de negar uma situação/acontecimento e, nesse caso, não é bem-vindo em muitos momentos das nossas vidas… E quando é necessário dizer “não” ao Outro, o sujeito fragilizado pode pensar que está frustrando/desiludindo uma certa crença que tinham referente à sua maneira de ser e agir. Nesse dilema dizer “não” mesmo para uma solicitação/pedido extremista – entra em cena sentimentos como a culpa – muitas vezes inconveniente. A culpa, só se justifica quando, funciona como uma repressão moral que nos impede de prejudicar as pessoas e, efetivamente, todas as maneiras de dissimulação contra o Outro que leva qualquer ser “normal” a sentir: culpa/remorso.

 
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Não raro, acompanhado da culpa entra em cena um dos sete pecados capitais: a vaidade. O desejo de se destacar no seu meio como uma pessoa devotada, querida, bondosa, amável, ou seja, que esteja sempre em função do Outro. Nesse caso, o “não” soa como um mal que se faz ao Outro. Por isso, muitas pessoas não conseguem dizer “não”. Gerando assim, culpa e angústia.

“Segundo Freud:
Ao lado de um corpo sem vida, passou a existir não só a doutrina da alma, a crença na imortalidade e uma poderosa fonte de sentimento de culpa do homem, mas também os primeiros mandamentos éticos. A primeira e mais importante proibição feita pela consciência que despertava foi: não matarás. (Freud, 1915b/1969, p. 305)”

“Lacan localiza esse sentimento em outro caminho, ou melhor, em um perfil de ética diferente, em que a única culpa que o sujeito pode carregar é a de ter cedido de seu desejo”. Dessa forma, a culpa por não ter ido de encontro em conformidade com seu desejo. Entende-se, que, na experiência analítica seria adaptável ao sujeito a indagação sobre o desejo que o habita, e não a repetição e repetição covarde da desculpa.

“Miller (1997b), o covarde é aquele que não se responsabiliza por seu desejo. Revelado como verdade única e particular, o desejo abre o horizonte de possibilidades para que o sujeito construa respostas únicas, mas nunca universais, para a pergunta: “o que devo fazer”?” – O que fazer com o sujeito covarde que não sabe lidar com a realidade imposta pela vida, diante de suas dúvidas? Esse sujeito acaba sempre cedendo dos seus desejos, prejudicando a si mesmo – podendo desencadear ao longo do tempo muitas patologias psicossomáticas.

Portanto, ao identificar a satisfação com a razão e opor a si mesmo a violência – à vida torna-se problemática – porque a satisfação se mostra irredutível à razão. Essa inflexibilidade da satisfação à razão é que colocaria à frente o sentimento de culpa. Isso implica na repetição de dizer não a si e beneficiar a outrem. Assim cita “Miller (1997b), o covarde é aquele que não se responsabiliza por seu desejo.

Em suma, a psicanálise não pretende ensinar o sujeito a não se culpar, mas que ele consiga elaborar o porquê de estar sempre de frente com a culpa. Entende-se que é fundamental para o ser humano encontrar-se consigo mesmo, mas, para isso, é preciso se dar a oportunidade de ter um caso de amor consigo mesmo – só, então, conseguira elaborar suas culpas, que, desencadeiam em angústia. Se é a culpa que leva o sujeito a se angustiar – causadora das patologias, pode ser também causa de aprendizado. Ninguém muda seus pensamentos e modos de viver se não passar pela angústia.

Autora, Luzziane Soprani

Referências:

FREUD, S. (1915b). A repressão. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XIV.

MILLER, J-A. Patologia da ética In: MILLER, J-A. Lacan eucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997b. LACAN, J. (1959-1960).

O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.